A União Totalitária.

Rui Mateus no seu livro censurado "Contos proibidos, memórias de um PS desconhecido " deixa bem claro que no PS sempre houve uma regra que nunca mudou: quem controla os ingressos de dinheiro, controla o partido. Uma boa parte do livro é dedicada às diversas formas utilizadas para obter e legalizar esses ingressos.

Também nesse livro, e já depois da sua edição até aos dias de hoje fica patente que o ps sempre foi um partido dividido: Soares/Zenha; Soares/Gama/Constancio/Sampaio/Guterres ; Socrates/Assis/Seguro/Alegre/Costa/Ana Gomes.

Também nesse livro (tratado fundamental para compreender o partido socialista e o regime da III República ) se explica como foi projectada e desenhada a estratégia e a campanha das eleições presidenciais de 1986. Estratégia essa desenhada por uma consultora norte americana que, perante a ideia fixa de Soares a todo o custo evitar as candidaturas de Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo para evitar a divisão de votos no espaço do PS centro esquerda, garantia que essas duas candidaturas seriam fundamentais para garantir a eleição de Soares à segunda volta, sem a qual, perderia logo na primeira. Soares cedeu, e ganhou.

Nas últimas eleições presidenciais, o PS teve sempre pelo menos dois candidatos oficiais na sua área politica: em 2016 Sampaio da Nóvoa (oficial) Maria de Belém e Henrique Neto. Em 2011 Manuel Alegre (oficial) e Fernando Nobre. Em 2006 Mário Soares (oficial) e Manuel Alegre. Em todas elas a divisão do Espaço do PS deu sempre a vitória aos candidatos de centro direita à primeira volta: Cavaco Silva duas vezes e Marcelo Rebelo de Sousa respectivamente.

Ora, parece que para 2021 a divisão no PS mantém-se mas o paradigma mudou e o contexto das próximas eleições presidenciais com António Costa aos comandos do PS e do país será totalmente diferente.

Ficou claro desde 2016 aquando da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, que Belém e São Bento gozam de um Estado de graça nunca antes visto. Depois do que se viu nos últimos 4 anos dá vontade de pensar que a escolha de Sampaio da Nóvoa como candidato do PS foi uma forma não declarada de entregar a presidência a Marcelo. Que melhor presidente poderia ter António Costa nos últimos 4 anos senão Marcelo? Mas ficaria mal declarar apoio a Marcelo em 2016, mas não hoje.
Hoje, António Costa está longe das disputas internas de 2014 e tem o partido na mão, porque é poder e controla o financiamento, além de culminar nos maiores índices de popularidade desde que está à frente do partido e do governo.

Por outro lado, a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa a par da simpatia e conivência demonstrada pelo e para com o governo e António Costa, se bem que lhe tenha custado alguns votos à direita angariou bastantes ao centro esquerda, eu diria mesmo todo o centro esquerda, ao ponto de António Costa - que de estúpido e parvo nada tem - lhe endossar o apoio mais ou menos implícito para já.

À direita, a única sombra de Marcelo é André Ventura. Com o CDS destronado e a IL com pouco peso eleitoral, e só por qualquer terramoto é que Rui Rio não apoio Marcelo - uma vez que até António Costa apoia - a única preocupação de Marcelo para garantir a reeleição à primeira volta será a de ir buscar ao PS os votos que perde para Ventura.

À esquerda, naturalmente haverá um candidato do PCP, outra do Bloco e a dúvida será se haverá dois, um ou nenhum da área do PS, e é aqui que a coisa parece ter ficado engraçada depois daquele jantar de noivado na WV de Palmela.

As declarações de ambos parecem não deixar dúvidas de que se não houver apoio declarado do PS a Marcelo pelo menos haverá uma liberdade de voto ou não apresentação de candidato próprio uma vez que a vontade e desejo de António Costa ficou clara: a reeleição de Marcelo.

Por outro lado, o PS sombra sente a necessidade de mais uma vez apresentar o seu candidato que terá mais força quanto mais evidente for a não apresentação de candidato próprio de António Costa. O problema aqui será outro: o fantasma de Maria de Belém Roseira que ficou com dois ou três colhões de euros para pagar da campanha eleitoral da eleição anterior.

É mais do que obvia a vontade de Ana Gomes em se candidatar. A mulher anda há anos ligada à corrente trifásica a cavalgar toda e qualquer pintelhice que possa ser transformada em luta política. Tentou acima de tudo retirar espaço de manobra a Costa para apresentar outro candidato que não ela. Mas Costa, que de parvo e burro nada tem, trocou-lhe as voltas em Palmela.
Não. Ana Gomes não está a reflectir se é candidata. O que ela está a fazer é a contar os trocos para a campanha eleitoral de umas eleições que vai perder, e quem controla o dinheiro e o partido é o Costa, e o Costa é o Marcelo estão umbilicalmente unidos por Tancos, Pedrógão, covid19, Novo Banco e outras ligaduras.

António Costa com Marcelo concretizaram o velho sonho molhado de Mário Soares: o PS dono e senhor do Centrão, do grande Bloco Central, com a extrema esquerda manietada por uma congestão de sapos indefesos, e a direita destroçada entre um esfarrapado PSD à nora comandado por um fidalgo sem terras, um cds imberbe e indigente e um André Ventura, que, tal como uma criança a brincar na banheira jamais conseguirá lançar um tsunami sobre o Terreiro do Paço.

Entretanto as boas graças da comunicação social estão garantidas, e a III República, a tal da democracia, da liberdade e do Estado de direito, acabará inevitavelmente em partes divididas como as congêneres anteriores: endividada, sem liberdade, sem democracia, sem direito e direitos e um povo submisso e entusiasta da miséria endêmica e crónica.

Os poderes de fiscalização e controle democrático enfim unidos numa única união nacional em São Bento com o aval do pudim flã de Belém.

A bem da nação.

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